Quanto nano e micro influenciador ganham por mês, de verdade

Não existe média confiável, e a média enganaria mesmo se existisse. O que dá para montar é a conta — e ela mostra que o limite de quase todo criador pequeno não é o preço, é o número de campanhas.

Thiago Araújo 6 min de leitura

"Quanto um influenciador de 20 mil seguidores ganha por mês?"

É a pergunta mais feita e a que tem a pior resposta disponível. Você vai achar artigos com médias precisas — "R$ 2.340 por mês" — e nenhum deles diz de onde tirou o número, quantos criadores observou ou em que mês.

Não existe pesquisa pública confiável sobre isso no Brasil. E aqui vai a parte mais importante: mesmo se existisse, a média enganaria você.

Por que a média não serve

Renda de criador não se distribui de forma equilibrada. Numa mesma faixa de seguidores convivem quem faturou zero no mês e quem faturou cinco mil — e a média dos dois descreve mal os dois.

Duas contas com 20 mil seguidores podem estar em situações completamente diferentes:

  • uma fala de um nicho que empresa nenhuma quer patrocinar, a outra fala de um nicho disputado;
  • uma tem público espalhado pelo Brasil, a outra tem 70% na mesma cidade e é ouro para o comércio local;
  • uma nunca mandou uma proposta, a outra manda cinco por semana.

O tamanho da conta é a variável que menos explica a diferença.

A conta que substitui a média

O faturamento de um mês é isto:

Renda do mês = (nº de campanhas × ticket médio) + outras fontes

Parece óbvio até você reparar em qual dos dois números quase todo criador tenta mexer. Todo mundo discute preço. Quase ninguém discute quantidade.

E na faixa pequena, é a quantidade que manda:

Preço por campanha Campanhas no mês Renda
Cobra caro, fecha pouco R$ 900 1 R$ 900
Cobra menos, fecha mais R$ 500 4 R$ 2.000
Cobra caro, fecha mais R$ 900 4 R$ 3.600

A primeira linha é onde está a maior parte dos criadores que reclamam do mercado. Não porque cobram errado — o preço dela pode estar perfeitamente calculado, do jeito que está no artigo sobre quanto cobrar por publi. O problema é o outro fator.

As fontes de renda que existem nessa faixa

Quem tira renda relevante com conta pequena quase nunca depende de uma coisa só. As fontes reais:

Publi no próprio perfil. A mais conhecida e a mais irregular. Depende de a marca querer o seu público.

UGC — conteúdo que você produz e a marca posta. Cresceu muito porque a marca não precisa que você tenha audiência: precisa que você saiba gravar. Paga-se por peça, o volume é maior, e não ocupa o seu feed. Para muita gente com conta pequena, rende mais que publi.

Afiliação e cupom. Renda variável, geralmente pequena por venda, mas acumula e não depende de negociar cada vez.

Monetização das plataformas. Só vira algo relevante com volume alto de visualizações. Trate como bônus, não como base.

Serviço próprio. Edição, roteiro, gestão de rede social para pequenos negócios, consultoria. Muitos criadores descobrem que a habilidade que usam no próprio perfil vale mais vendida diretamente.

Permuta, quando substitui despesa. Não é renda, mas reduz gasto — e no orçamento dá no mesmo. Só vale contar quando cobre algo que você compraria mesmo, como está no artigo sobre permuta.

Três cenários, com a conta aberta

Os números abaixo são hipóteses para você trocar pelos seus, não médias de mercado. O que interessa é o formato da conta, não os valores.

Começando

Duas campanhas de UGC a R$ 350 e uma publi a R$ 400.

R$ 1.100 no mês. E o mês seguinte pode ser R$ 350 ou zero — nessa fase a variação é a regra, não a exceção.

Com alguma consistência

Quatro UGC a R$ 400, duas publis a R$ 600 e R$ 200 de afiliação.

R$ 3.000 no mês. Repare no que mudou: o ticket subiu pouco, o volume dobrou. Foi o volume que fez a diferença.

Já profissionalizado

Seis UGC a R$ 500, três publis a R$ 900, um contrato mensal de R$ 1.200 com uma marca e R$ 400 de afiliação.

R$ 7.300 no mês. A novidade aqui não é o preço: é o contrato recorrente. Um cliente fixo estabiliza o mês inteiro e é o que separa renda de bico.

Note o padrão nas três: em nenhuma delas o número de seguidores apareceu.

O gargalo verdadeiro: quantas conversas viram uma campanha

Se a renda depende do número de campanhas, então depende de quantas propostas você faz.

E é aqui que quase todo criador para. Manda uma mensagem por semana, recebe silêncio, conclui que o mercado está ruim. Só que prospecção funciona como funil: uma parte das marcas contatadas responde, uma parte das que respondem negocia, uma parte das que negociam fecha.

Você não controla as taxas. Controla o número de entradas.

O que ajuda a melhorar o funil sem aumentar o esforço:

  • Ter um mídia kit pronto para mandar na hora, em vez de montar a cada conversa. O modelo está aqui.
  • Falar com quem decide. Numa loja pequena, o dono. Numa empresa média, o marketing — não o perfil oficial no Instagram.
  • Procurar quem já anuncia. Marca que faz anúncio pago tem verba e processo. Marca que nunca anunciou precisa ser convencida da categoria inteira antes de ser convencida de você.
  • Estar onde a marca procura. Um perfil completo em plataforma de contratação inverte o sentido do esforço: em vez de você procurar, a busca chega. É o que dá para montar em alguns minutos, e vale mais quanto mais avaliações você acumula.

O que faz subir de degrau

Em ordem de impacto, na experiência de quem cresce:

  1. Mais campanhas por mês. Dobrar o volume é mais fácil e mais rápido que dobrar o preço.
  2. Um cliente recorrente. Um contrato mensal, mesmo pequeno, muda a relação com o mês. Você para de começar do zero.
  3. Uma segunda fonte. Quase sempre UGC, porque aproveita a habilidade que você já tem e não depende do seu alcance.
  4. Preço. Vem depois, e vem sozinho quando você tem fila.

A ordem importa. Muita gente tenta o item 4 primeiro, sem os três anteriores, e conclui que "ninguém quer pagar".

A parte que ninguém conta

A renda de criador é irregular por natureza, e isso não é sinal de que você está indo mal.

O começo do ano costuma ser mais fraco porque os orçamentos ainda não foram aprovados. Os meses perto das datas comerciais concentram campanha. Uma marca some por três meses e volta com dois contratos.

Três coisas ajudam a conviver com isso:

  • Olhe a média de três meses, nunca o mês isolado. Com três ou quatro campanhas no mês, uma a mais muda tudo — e não significa nada sobre a tendência.
  • Guarde nos meses bons. Não é conselho genérico de finanças: é a consequência direta de uma renda que varia 300% de um mês para o outro.
  • Separe o que é seu do que é da atividade. Câmera, edição, transporte e imposto saem do faturamento antes de virar o seu dinheiro. Faturar R$ 3.000 não é ganhar R$ 3.000.

A resposta honesta

Não dá para dizer quanto você vai ganhar com 20 mil seguidores. Dá para dizer o seguinte:

Vai depender muito mais de quantas campanhas você fecha do que de quantos seguidores você tem. E o número de campanhas depende de coisas que estão sob o seu controle — ter material pronto, falar com quem decide, aparecer onde as marcas procuram e ter mais de uma fonte.

Quem trata isso como trabalho tende a ganhar mais que quem tem o dobro de seguidores e trata como sorte.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre nano e micro influenciador?

As faixas variam conforme quem define, e não existe padrão oficial. A convenção mais usada trata nano como algo entre mil e dez mil seguidores, e micro entre dez mil e cem mil. Só que a faixa importa menos que a entrega — uma conta de 8 mil com público concentrado numa cidade vale mais para o comércio local que uma de 60 mil espalhada pelo país.

Dá para viver só de publi com menos de 50 mil seguidores?

Dá, mas quase nunca só de publi. Quem tira renda principal nessa faixa costuma combinar três ou quatro fontes: publicidade no próprio perfil, conteúdo UGC produzido para a marca postar, afiliação e algum serviço próprio. Depender de uma fonte só é o que torna a renda instável, mais do que o tamanho da conta.

Por que o meu faturamento oscila tanto de um mês para o outro?

Porque o número de campanhas é pequeno e o mercado tem sazonalidade forte. Uma campanha a mais ou a menos muda o mês inteiro quando o total são três. Some a isso os meses de orçamento apertado no começo do ano e os de pico perto das datas comerciais. Olhe a média de três meses, não o mês isolado.

Vale mais aumentar o preço ou fechar mais campanhas?

No começo, quase sempre fechar mais. Dobrar o preço com uma campanha por mês dá menos que manter o preço e passar para três. Depois de um volume estável, inverte: aumentar o preço passa a render mais, porque o seu tempo vira o limite.

Como faço para receber propostas sem ficar procurando marca?

Estar num lugar onde as marcas procuram. Perfil completo em plataforma de contratação, com preço inicial, formatos e público declarados, faz a busca vir até você. Não substitui a prospecção ativa no começo, mas reduz o esforço à medida que o perfil ganha avaliações.