Influenciador da sua cidade: o erro que faz campanha local não vender

Contratar alguém que mora na sua cidade não significa falar com quem mora nela. Essas duas coisas se separam mais do que parece — e é aí que a verba de comércio local costuma evaporar.

Thiago Araújo 4 min de leitura

Uma padaria em Belo Horizonte contrata uma criadora de Belo Horizonte. Faz sentido, parece óbvio, e é onde a maior parte da verba de comércio local se perde.

O que quase ninguém confere antes de fechar: onde mora o criador e onde mora o público dele são dois dados diferentes, e eles se separam com muita frequência. A criadora mora na cidade, grava na cidade, fala do trânsito da cidade — e 80% de quem a assiste está em outros estados, porque o conteúdo dela viralizou fora.

Para uma marca nacional, isso é ótimo. Para uma padaria, é dinheiro pago por gente que nunca vai passar na porta.

A pergunta que muda a conta

Não é "esse criador é daqui?". É "quantas das pessoas que veem esse conteúdo podem entrar na minha loja?"

Um exemplo com números redondos:

Criadora A Criadora B
Seguidores 60.000 6.000
Mora na cidade sim sim
Público na cidade 12% 74%
Pessoas alcançáveis 7.200 4.440
Preço do post R$ 900 R$ 150
Custo por pessoa alcançável R$ 0,125 R$ 0,034

A criadora A tem dez vezes mais seguidores e alcança menos que o dobro do público que interessa — por seis vezes o preço. E isso ainda é generoso com ela, porque não considera que a audiência local da B tende a ser mais próxima: ela conhece os lugares, responde comentário, e a recomendação dela soa como a de uma vizinha.

Faça essa tabela antes de fechar. São cinco minutos e ela muda a decisão com frequência incômoda.

Como confirmar de onde é o público

Instagram, TikTok e YouTube mostram, no painel do próprio criador, as principais cidades da audiência. Peça o print — e peça direito:

  • dos últimos 30 dias, não do melhor mês do ano passado;
  • com a data visível na tela;
  • da conta que vai publicar, não do perfil pessoal dele.

Criador organizado manda isso em minutos e sem estranhar; é o mesmo material do mídia kit. Se a resposta for um número solto por mensagem — "tenho uns 70% daqui" —, trate como estimativa, não como dado.

Um detalhe que engana: as plataformas mostram cidade da audiência, mas em regiões metropolitanas isso se espalha. "Belo Horizonte 40%" pode significar que os outros 60% estão em Contagem, Betim e Nova Lima — gente que talvez ande até você. Olhe a lista inteira, não só a primeira linha.

O que pedir num conteúdo local que funciona

Campanha local não é campanha nacional em escala menor. O que converte é outra coisa.

O lugar aparecendo. Fachada, rua, a esquina que todo mundo conhece. É o que faz alguém pensar "ah, é ali" — e "ali" é metade da decisão em compra local.

A informação prática no conteúdo, não só na legenda. Endereço, horário e como chegar ditos em voz alta ou na tela. Legenda se corta, story passa, mas o que foi falado fica.

Um motivo para ir agora. Comércio local vive de deslocamento, e deslocamento precisa de empurrão: um item por tempo limitado, um brinde para quem mencionar o criador, um horário específico.

Algo que identifique a origem. Cupom com o nome do criador, ou uma pergunta na hora do atendimento. Sem isso você não vai saber se funcionou, e vai decidir a próxima campanha no achismo — o assunto de como medir retorno.

Quantos contratar

Para uma cidade, dois ou três criadores pequenos com público local costumam render mais que um grande. Não é só o preço: é que eles se sobrepõem menos do que se imagina. Públicos locais são feitos de bolhas — bairro, faixa etária, interesse — e cada criador alcança a sua.

Se você tem verba para um só, prefira o de público mais concentrado na cidade, mesmo que seja o menor de todos.

Quando o criador de fora é a escolha certa

Nem toda campanha local quer alcance local.

Hotel, pousada e restaurante de destino vivem de quem vem de fora. Uma loja que vende pela internet e tem retirada na cidade quer as duas coisas. Nesses casos, público concentrado na sua cidade é justamente o que você não quer — o certo é procurar audiência nas cidades de onde vêm seus clientes.

A regra continua a mesma, só muda o alvo: olhe de onde é o público, não de onde é a pessoa.


Na busca da Alpha dá para filtrar por cidade e ver, em cada perfil, a distribuição de audiência que o criador declarou — que é exatamente a distinção deste texto. O número é declarado pelo criador; o print continua valendo a pena pedir antes de fechar.

Perguntas frequentes

Prefiro alguém da minha cidade ou alguém com público na minha cidade?

Público na sua cidade, sempre — é ele que entra na loja. Morar aí é um bônus, porque permite gravar no local e dá naturalidade ao "fui lá". Mas criador que mora na cidade e tem audiência nacional entrega a você, na prática, uma fração pequena do que você pagou.

Qual porcentagem de público local é boa o bastante?

Não existe número mágico, existe conta. Se 30% da audiência é da sua cidade, você está pagando por 100% e falando com 30% — então o preço só faz sentido se, dividido por esses 30%, ainda ficar melhor que suas outras opções. Faça essa divisão antes de fechar, não depois.

Vale contratar alguém de cidade vizinha?

Depende de quanto o seu cliente anda. Restaurante e salão vivem de quem está a poucos quilômetros; loja de móveis, clínica especializada e concessionária puxam gente de longe. Antes de descartar a cidade vizinha, olhe de onde vêm os clientes que você já tem.

Como confiro se o público é mesmo da minha cidade?

Peça um print do painel do próprio criador — Instagram, TikTok e YouTube mostram cidades principais da audiência. Peça com a data visível e dos últimos 30 dias. Número declarado sem print não é dado, é estimativa de quem quer vender.

Um criador pequeno da cidade vale mais que um grande de fora?

Para comércio local, quase sempre — mas o motivo não é engajamento, é geografia. Mil pessoas que podem ir até a sua porta valem mais que cinquenta mil espalhadas pelo país. Compare pelo número de pessoas alcançáveis que realmente podem comprar de você, não pelo total de seguidores.